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Bahia tem o segundo maior percentual de mulheres produtoras rurais no país

Oriunda de família de pecuaristas da região de Feira de Santana, no Centro-Norte da Bahia, a agricultora Cláudia Carvalho, 58 anos, prepara o terreno (literalmente) para realizar um sonho: desenvolver a agricultura sintrópica, forma de cultivo baseado em sistemas agroflorestais e respeito ao meio ambiente e que promete render, por ano, 80 toneladas de alimentos em apenas um hectare de terra, área equivalente a um campo de futebol.

No Sítio Belo Vale, de 12 hectares, em Mata de São João, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), ela trabalha com melhorias no solo para iniciar as primeiras plantações de árvores frutíferas, como coco, açaí, jenipapo e abacate, em meio à vegetação nativa da região. “O sistema começa para valer a partir de setembro, estou fazendo os preparativos e na fé que vai dar certo. Estou adorando viver aqui”, conta Cláudia.

A agricultora é uma das 194.533 mulheres que chefiam estabelecimentos rurais na Bahia, segundo o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado nesta quinta-feira (26). Essa quantidade de mulheres equivale a 25,6% dos 760.373 produtores recenseados, o que deixa a Bahia com o segundo maior percentual de mulheres produtoras do Brasil, só perde para Pernambuco (27,2%).

No país como um todo, 18,7% dos produtores agropecuários são mulheres – são 945.490 produtoras rurais em números absolutos. Segundo o IBGE, a zona rural de Feira de Santana, onde a agricultora Cláudia chegou a atuar como coordenadora de atividades em 2004 e 2005 no Sindicato dos Produtores Rurais, é a que mais tem porcentagem feminina no campo em relação aos homens, com 55,7%.

Em seguida vêm as cidades de Santo Estêvão (55,5%), Antônio Cardoso (51,0%) e Pedrão (50,9%). A participação feminina à frente dos estabelecimentos agropecuários brasileiros e baianos cresceu de forma significativa em relação a 2006, quando elas representavam 12,7% dos produtores no país e 17,9% dos baianos.

Em 2006, Sergipe tinha a maior participação feminina e a Bahia ocupava o terceiro lugar. Todos os estados brasileiros tiveram aumento do percentual de mulheres produtoras agropecuárias, entre 2006 e 2017. Sobre a pesquisa do IBGE, a agricultora Claudia disse que é um “avanço natural da mulher no campo”. Além do sítio, ela ainda atua com turismo equestre na Costa do Sauípe, litoral baiano.

“Entrei no sindicato porque via que só quem tinha mais apoio eram os grandes produtores, os pequenos e médios não recebiam quase nada”, contou Cláudia, que é formada em Economia, com especialização em Turismo e Antropologia. “Com os 15 animais que tenho, já promovi mais de 5 mil passeios”, ela garante. “Mas a agricultura é minha paixão, e é a isso que estou mais me dedicando agora”, disse.

Empoderamento

O supervisor de Pesquisas Agropecuárias do IBGE Augusto Barreto disse que a pesquisa não identificou razões para o avanço da liderança das mulheres no campo. Contudo, ele acredita que seja “reflexo do empoderamento feminino na sociedade, onde a mulher tem conquistado lugar em todos os espaços, e no campo não poderia ser diferente”.

Produtora de algodão em Luís Eduardo Magalhães, no Extremo-Oeste, principal produtora de grãos do estado, Carminha Maria Missio, vice-presidente da Federação dos Agricultores do Estado da Bahia (Faeb), observa que a produtora rural baiana tem ocupado não só espaços de liderança, mas também em setores administrativos de empresas agrícolas, operam máquinas, gerenciam propriedades e prestam assistência técnica.

“É um avanço geral que temos visto ocorrer e é importante destacar que a mulher tem sido cada vez mais respeitada pelos homens pelo trabalho que tem desenvolvido no campo”, falou Carminha, uma gaúcha de 61 anos que até os 45 tinha apenas a 8ª série e hoje é bacharel em Direito.

Agricultura familiar

No Sertão da Bahia, o avanço da mulher no campo se dá na agricultura familiar, segundo o presidente da representação baiana da Associação Nacional de Produtores de Cebola (Anace), José Carlos Gomes. “A maioria das produtoras de cebola são da agricultura familiar e nesse quesito temos visto muitas mulheres no comando”, declarou.

“Mas, há mulheres também que são grandes produtoras, em menor número, mas tem. São boas negociantes, cultivam bem o seu produto”, comentou Gomes, que produz cebola em Irecê, cidade do Centro-Norte que, ao lado de Juazeiro, é apontada pelo IBGE como responsável pela abertura de novas áreas de produção no estado.

O avanço da produção de cebola em Juazeiro e Irecê, segundo o IBGE, fez com que a Bahia passasse a ser o segundo maior produtor da hortaliça no país. Entre 2006 e 2017, a produção de cebola na Bahia mais que quadruplicou, passando São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná.

A produção baiana de cebola passou de 39.719 em 2006 para 220.676 toneladas em 2017, um aumento de 455,6% que tornou a Bahia responsável por 18,9% da safra nacional do produto, de 1,165 milhão de toneladas. Os municípios baianos que se destacaram na produção nacional foram Cafarnaum (5º maior produtor, com 39 mil toneladas), Canarana (10º, com 19 mil toneladas) e Morro do Chapéu (11º, com 19 mil toneladas).

Fonte: Jornal CORREIO

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