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Essenciais na produção de alimentos, abelhas-sem-ferrão precisam ser protegidas

Pesquisadores e meliponicultores acionam até o Ministério Público em busca de apoio para preservar espécies nativas

No viveiro do Egon, as jataís ajudam no desenvolvimento dos mirtilos. Marcos Adriano cria abelhas-sem-ferrão, constrói meliponários e difunde a cultura em Sapiranga e em cidades ao redor. Servidores públicos de Estância Velha, Pedro e Hoeslen ensinam crianças sobre a preservação da natureza e o papel das abelhas no ecossistema.

Morador de Sapucaia do Sul, Marcello se preocupa tanto com a preservação das espécies nativas que se propõe a dar cursos gratuitos a quem tiver interesse. A bióloga Sidia, junto de outros colegas, chegou a acionar o Ministério Público em nome da preservação.

Em comum, essas pessoas têm o interesse de preservar espécies e difundir informações sobre as abelhas originárias do Brasil, em especial das 24 variedades típicas do Rio Grande do Sul.

As chamadas abelhas-sem-ferrão começaram a despertar interesse por duas razões em especial, uma delas a própria preservação das espécies nativas.

Diferentemente das abelhas com ferrão, as chamadas apis, introduzidas no Brasil ainda na época da colonização do território, as melíponas (espécies sem ferrão) sempre viveram por aqui. Contudo, há algumas espécies em risco de extinção. O outro motivo para o esforço de preservação se deve ao equilíbrio tanto do ecossistema como da agricultura.

Pesquisadora da Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Irrigação (Seapi), a bióloga Sidia Witter explica que as abelhas-sem-ferrão são excelentes polinizadoras. Pesquisas comprovam a afirmação de Sidia sobre o desempenho de lavouras de moranguinhos, por exemplo, com a presença de colmeias de melíponas.

Além disso, mantê-las por perto de uma lavoura faz com que sejam preservadas árvores nativas, pois são esses locais seus preferidos para construírem os ninhos. Logo, se tiver mais árvores, terá mais alimento para abelhas e, em última análise, um ecossistema mais equilibrado. Em resumo, todos ganham.

Pesquisadores buscam apoio do Ministério Público

Preocupados com a preservação das espécies nativas de abelhas-sem-ferrão, pesquisadores bateram à porta do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP/RS) para buscar apoio em maio deste ano.

A partir de pedido do grupo de pesquisadores, do qual Sidia faz parte, ao lado das pesquisadoras Patrícia Nunes Silva e Betina Blochtein; do representante do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), Carlos Dias; e do professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), Rafael Meireles; o MP deu início a algumas estratégias de proteção.

Por intermédio da procuradora Ana Marchesan, foi realizado em outubro um curso de capacitação sobre as espécies nativas, o que envolveu as divisões ambientais da Brigada Militar e da Polícia Civil.

A procuradora conta que fez reuniões com a Delegacia de Crimes Ambientais, Batalhão Ambiental da Brigada Militar, Ibama, Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) e a Seapi. “E idealizamos um curso de capacitação para fiscalização”, resume Ana.

Os pesquisadores procuraram o Ministério Público, preocupados com o ingresso de diversas abelhas na fauna nativa do Rio Grande do Sul. Há inclusive comercialização pela Internet.

O objetivo do curso foi de instruir os agentes de segurança a reconhecer espécies nativas no momento da fiscalização de trânsito desses animais, o que ajudará na preservação. Além disso, foi elaborado o livro Guia de Reconhecimento de Abelha Sem Ferrão do Rio Grande do Sul, que traz informações sobre os insetos.

Esse material foi custeado com recursos do Ministério Público, tem distribuição gratuita e serve para meliponicultores, técnicos e extensionistas, entre outras pessoas. Ainda há uma versão digital disponível no site da Seapi. O volume digital está disponível em https://bit.ly/guiadeabelhas (versão em alta resolução).

“Os pesquisadores procuraram o Ministério Público, preocupados com o ingresso de diversas abelhas na fauna nativa do Rio Grande do Sul. Há inclusive comercialização pela Internet”, comenta a procuradora Ana. “O curso serviu para levar informações sobre as nossas espécies. Para alertar as pessoas sobre o trânsito das espécies que estão vindo de fora do Rio Grande do Sul, principalmente em relação às doenças que podem trazer”, pontua Sidia.

Polinização tem relação direta com a agricultura

O Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, estudo citado por Sidia, foi elaborado pela Rede Brasileira de Interações Planta-Plinizador (Rebipp). Neste material, os pesquisadores afirmam que as abelhas formam o maior grupo de polinizadores e estão relacionadas a uma grande variedade de cultivos vinculados à produção de alimentos. Sidia menciona que entre as espécies listadas no estudo estão as abelhas-sem-ferrão.

“Mandaçaia, espécie bem conhecida no Rio Grande do Sul, é um excelente polinizador para café, para maçã, tomate e pimentão”, exemplifica a pesquisadora. Espécies como jataí, iraí, mirim são excelentes polinizadoras nos cultivos de morango, inclusive, para os que são mantidos em estufa.

Algumas comprovações que a pesquisadora cita são percebidas na prática pelo proprietário de um viveiro de mudas, Egon Schneider, 65 anos, em Estância Velha. Além das plantas que cultiva para comercialização, ele mantém um pequeno pomar de mirtilos.

O cultivo começou em 2019. A ideia de plantar mirtilos se deve às propriedades antioxidantes da fruta, aspecto que Egon passou a valorizar depois de ter passado pelo tratamento de um linfoma naquele ano. Pesquisando aqui e ali, descobriu que abelhas-sem-ferrão seriam as polinizadoras perfeitas.

Com flores muito pequenas, num formato que parece um sino, os mirtilos necessitam de um polinizador igualmente pequeno. As abelhas jataí se encaixaram perfeitamente. O plantio de Egon está na primeira safra e com pés carregados de frutas.

“Eu não saberia dizer se é por causa da abelha, porque é o primeiro ano que etá produzindo. Está bem carregado. Não tenho como comparar, mas deduzo que os pés carregados de mirtilo seja por causa delas. No mínimo, posso dizer que errado não está dando.” Hoje, as abelhas-sem-ferrão também são um atrativo no viveiro.

Transporte preocupa criadores

Da mesma forma que pesquisas científicas atestam a eficiência das abelhas na polinização, os estudos também alertam para o risco do transporte de espécies entre os Estados brasileiros, entre biomas diferentes. Meliponicultores que estudam a cultura e pesquisadores ressaltam o risco de hibridização das nativas diante do ingresso de outras espécies em determinado território. Ou seja, o cruzamento entre abelhas nativas e invasoras pode reduzir cada vez mais a população das abelhas-sem-ferrão.

Para esclarecer sobre o risco de perder espécies naturais é que meliponicultores têm se esforçado para difundir cada vez mais informações. No último dia 25, uma live reuniu dezenas de meliponicultores e pesquisadores, entre eles, Cristiano Menezes, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), para tratar sobre o trânsito de abelhas-sem-ferrão.

No encontro foi apontado o projeto de lei que trata do assunto, que tramita na Câmara dos Deputados. Meliponicultores entendem que, se aprovada, a proposta permitirá um tráfego de espécies irrestrito pelo País, o que pode trazer consequências negativas para as variedades nativas. Uma permissão desse tipo poderia prejudicar a conservação das espécies originárias de cada região do Brasil.

Menezes cita estudos científicos que alertam sobre as consequências do transporte de abelhas. O pesquisador ressalta três consequências principais, como a hibridização ou homogeneização genética, competição entre espécies invasoras e disseminação de pragas. Essas consequências se devem à movimentação de colônias de regiões diferentes do país.

O pesquisador descreve o exemplo entre a melipona scutellaris (natural da região de Mata Atlântica no Nordeste o Brasil) com a melípona capixaba (originária da região da serra do Espírito Santo). Ambas as espécies foram levadas para um local comum e acabaram formando um híbrido. Isso quer dizer que a partir do cruzamento dessas duas espécies surgiu outra, que não seria fruto de uma ocorrência natural, uma vez que as regiões geográficas delas são distantes. “Foram vários estudos em relação a essa mistura que inclusive incentivou a colocar a melípona capixaba na lista de espécies ameaçadas de extinção, organizado pelo ICMBio”, afirma Menezes.

Associação atua para instruir e ensinar

Presidente da Associação Gaúcha de Meliponicultura (Agmel), Marcello Koch Berg defende a preservação genética das abelhas do Sul. Espécies como a mandaçaia, por exemplo, que são originárias da região Sul do Brasil, sendo encontradas também no Estado de São Paulo, já foram alvo de cruzamento com outras espécies. Isso criou uma nova espécie mestiça. Esses cruzamentos não só prejudicam a preservação das originárias, como também diminui o valor de mercado das abelhas. “Se traz espécies de fora, pode estar matando as abelhas nativas”, alerta Berg.

Se traz espécies de fora, pode estar matando as abelhas nativas.

O meliponicultor, que tem criações em Sapucaia do Sul, também oferece cursos e capacitações sobre as abelhas-sem-ferrão. A Agmel presta apoio a novos meliponicultores que necessitam de instrução sobre manejo. Além disso, trabalha com educação ambiental nas escolas. Os meliponários também são abertos à visitação na Avenida Rubem Berta, 1870, Sapucaia do Sul. É preciso agendar a visita pelo telefone (51) 98270-5972.

Capacitação para agricultores sobre meliponídeos

Engenheira agrônoma da Emater em Canoas, Karoline Kolinski de Lima reforça que estudos acadêmicos comprovam o serviço que essas espécies desempenham na produção de alimentos. O papel das abelhas para o setor primário é tão relevantes que a própria Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) se encarrega de instruir agricultores sobre o manejo.

Karoline é responsável pela realização de cursos de capacitação que ocorrem no Centro de Treinamento de Agricultores de Montenegro (Cetam). “É um curso para quem já tem alguma familiaridade com as abelhas-sem-ferrão ou que deseja iniciar na criação, ou ainda para aqueles que já criam as abelhas, mas querem se aperfeiçoar”, explica.


Difusão da meliponicultura na região

O projeto Casinha de Mel leva informações sobre abelhas-sem-ferrão a crianças das escolas de Estância Velha. É uma proposta de educação ambiental que tem nas espécies nativas a referência de preservação do meio ambiente. Os encontros nas escolas são conduzidos pelo articulador de projetos ambientais da Prefeitura de Estância Velha, Hoeslen Mauzer, e pelo meliponicultor, que também é servidor da prefeitura, Pedro Maya.

“Queremos que todas as escolas tenham a casinha de mel, porque quando a gente trabalha com abelhas-sem-ferrão, a gente também trabalha com preservação de árvores, plantio de hortaliças, trabalhamos todo o contexto da preservação dentro do município”, explica Mauzer sobre a iniciativa. Nas visitas às escolas, eles dão uma “aula” sobre abelhas nativas, tiram dúvidas das crianças e instalam um meliponário.

Vivendo entre abelhas desde criança

É “desde sempre” que Marcos Adriano Gonchoroski, morador de Sapiranga, lida com abelhas. A curiosidade despertou o interesse sobre as espécies sem ferrão e hoje ele mantém um meliponário que comercializa produtos, mas também pretende compartilhar o conhecimento. A intenção é colaborar para a preservação das espécies. “Meliponicultura não é só criar abelha é plantar também”, ressalta Gonchoroski, referindo-se à relação direta com a preservação do meio ambiente.

Ele fez diversos cursos e hoje também ensina quem quer começar na atividade, uma das primeiras lições é explicar que as espécies são adequadas conforme determinado bioma ou localidades. “Todo esse entendimento oferece para a preservação da espécie”, ressalta. Gonchoroski tem ajuda da esposa Tais Duarte Buenos e da filha Mônica no manejo com as abelhas.

Abelhas sem ferrão do RS

A Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) disponibiliza informações gerais sobre as abelhas-sem-ferrão, incluindo resoluções sobre autorizações de meliponários com finalidade comercial, científica ou educacional, bem como um manual de boas práticas.

O órgão também lista todas as espécies de meliponídeos do Rio Grande do Sul. São eles: Iratim, abelha limão (Lestrimelitta limao – Smith, 1863); Iratim, abelha limão (Lestrimelitta sulina Marchi & Melo, 2006); Guaraipo, pé-de-pau; Manduri; Mandaçaia; Mirim do chão, bieira; Iraí; Mirim sem brilho; Mirim; Mirim droriana, boca de sapo; Mirim emerina; Mirim; Mirim nigriceps; Mirim guaçu; Mirim saiqui; Mirim mosquito; Tubuna (Scaptotrigona bipunctata); Canudo; Tubuna (Scaptotrigona tubiba); Mel de chão, guiruçu; Vorá, borá, jataizão; Jataí, alemanzinho (Tetragonisca angustula); Jataí, alemanzinho (Tetragonisca fiebrigi); Irapuá. O material completo pode ser acessado em sema.rs.gov.br/abelhas-nativas-me.

Entenda a diferenças entre as abelhas

As abelhas mais conhecidas são aquelas espécies com ferrão, também chamadas de apis (daí o nome apicultura). Essas espécies foram introduzidas no Brasil, são variedades africanas e europeias. As primeiras abelhas apis no Brasil datam do século 19.

Mais tarde, na década de 1950 do século 20, chegaram outras variedades. Essas espécies são aquelas que produzem o mel que a maioria das pessoas conhecem, característico pelo sabor doce e textura açucarada.

As abelhas-sem-ferrão, as chamadas melíponas (por isso, o manejo dessas espécies se chama meliponicultura) são nativas do território brasileiro, mas também ocorrem no mundo todo. Elas também produzem mel, mas com características diferentes.

Algumas variações do mel são de cor mais clara e sabor que vai desde o adocicado ao mais amargo. A colmeia das abelhas-sem-ferrão também é diferente, é num formato circular, enquanto que as apis formam um favo hexagonal.

Por que despertam tanto interesse

Como as melíponas não têm ferrão, facilita o manejo e ainda desperta o interesse de criadores que acabam até colecionando espécies. Muitas vezes, o ímpeto de criadores pode comprometer o equilíbrio das espécies a partir da introdução de abelhas de outros biomas. Há risco de transporte de doenças junto das abelhas de fora e também de cruzamento genético que vem a comprometer as espécies nativas.

As variedades sem ferrão são versáteis. É comprovado que são eficientes na agricultura e, além disso, permitem a extração de produtos. O mel é o principal. Mas também permite que seja produzido o hidromel, uma bebida feita à base do mel de abelha, assim como é possível extrair a própolis.

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